Coluninha indiscreta. Por Carlos Pinheiro. Boîte Shell

O Night Club da Rua Almirante Barroso, em Caruaru, acabara de ser empurrado para o Mocó, bairro incipiente no meio da caatinga, por não se admitir prostíbulo no centro da cidade. “Dadonde já se viu mulheres de vida fácil praticando abomináveis atos sexuais em prédio maior que igrejas e mais alegre que quermesses dominicais”? – perguntavam religiosos que agonizavam o enrustido sexo em corpos vigorosos, e madames mal amadas, invejosas e infelizes. Não percebiam que a abominável e repugnante atividade sexual por necessidade alimentar das mulheres era, também, alívio para o estresse dos rapazes de família que casavam com moças virgens. Coisa em tempo que passou. Hoje, a atividade é praticada mais por opção, embora a fome ainda seja a causa.


Então, Teca Couro de Jacaré, ou simplesmente Teca Jacaré, fechou o puteiro no local e o transferiu para um terreno cascalhada, ali na curva da Avenida José Rodrigues de Jesus. Lugar ermo, escuro, difícil de chegar, mas que todo bom raparigueiro encontrava. Afinal, as meninas de Teca eram de primeiríssima qualidade, todas “virgens” de cidades nas cercanias de Caruaru. Na boate de Teca, algumas permaneciam virgens, mesmo após dias de trabalho incansável. Ao visitante cabia acreditar e pagar mais caro, ou não.

E, para inauguração, nada mais apropriada que edificar placa em acrílico escrita em destaque com a concha da petroleira estrangeira, mesmo que boate estivesse escrito no mais perfeito francês misturado ao inglês: Boîte Shell. E, no dia da inauguração, foram convidados por Teca os mais assíduos frequentadores, dentre outros: Everton Lucena, Oscarlino Laranjeira, os Tios Adalberto e Etelmino, Carlos Lima (O Centenário), Pedro Limeira, Manuel Vilmar, Tarcísio Miranda, Ruisinho Rosal, Geraldo Assis, Zé Amadeu, Marcone Cordeiro, o artesão Manuel Florêncio, Basto Casé e Carlos Tabosa.


E foi um festão de grande repercussão na cidade. E a Boîte Shell ganhou destaque pela qualidade da “mercadoria” servida. Toda semana Teca dizia ter uma virgem de Cupira, de Palmares, de São Caetano e, assim, sua casa virou, realmente, casa de alta rotatividade, cosmopolita.


Aconteceu, tempo depois da inauguração da Casa dos prazeres instalada e afamada, visitar a boate um puxa saco funcionário da Shell que vendia derivados de petróleo nos postos de gasolina da cidade, convidado por Carlos Daniel a visitar a Boîte Shell. Chegando lá, o serviçal se achou no direito de exigir que Teca Jacaré mudasse o nome da boate porque Shell era marca internacional e não podia ser usada por outra empresa, muito menos por um cabaré. Teca coçou sua xerodermia e pensou no prejuízo que teria. Afinal, a placa custara uma pequena fortuna e fora confeccionada pelo artesão Reginaldo Luiz.
Naquele momento, acabava de entrar Carlos Centenário e Geraldo Assis, aos quais Teca contou seu problema.
– Deixe cum nois, Teca. Num se aperrei. – disse Centenário, que cochichou com Geraldo o plano pra amedrontar o puxa saco da Shell. E postaram-se na sala de visitas de espera de raparigas, bebericando ao redor de um centro (mesinha) das pernas abertas que todos chutavam sem querer. E, após ouvirem os argumentos do puxa saco, contra-atacaram.
– Moço, somos do governo federal e estamos esperanto o major que pode consultar nossa embaixada estrangeira e saber se realmente vocês desejam proibir a placa de Dona Teca. O amarelo metido à gente amarelou e percebeu que se metera numa fria.


No momento seguinte, entrou Ruisinho Rosal, frequentador de carteirinha da boate, que se surpreendeu por Centenário e Geraldo se perfilarem, batendo continência com consentimento de descansar após o raparigueiro gordo perceber estar em andamento alguma armação.
– Seja bem vindo, Major! Sente-se, por favor. – disseram fingindo bajulação militar.

O problema foi relatado. O puxa-saco já tremia dos pés à cabeça, quando Ruisinho perguntou com a frieza própria aos inquiridores:

– Você quer desistir dessa ideia absurda de mudar o nome da boate ou prefere que eu ligue pra o ministro pra ele ligar pra Washington, lá nos States, e você perder o emprego?
A placa continuou no lugar, o puxa-saco foi-se às pressas apertando as pernas segurando a bosta e nossos heróis tiveram as mais belas meninas, beberam, comeram e nada pagaram.
Cortesia de Teca Jacaré.
Essa estória é de ouvi dizer.

Vê se pode?!

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