Coluninha indiscreta. Por Carlos Pinheiro.

Sensação de morte!

Morrer não causa tanto medo quanto se sentir espreitado por ELA. Prisioneiros sem crimes, não bastasse o cerceamento do ir-e-vir, torturam-nos com a ameaça constante da contaminação pela Covid-19:

  • Se você tem mais de 60 anos, está na área de risco. Fique em casa. – em outras palavras, sem sutileza, é o mesmo que dizer:

  • – A morte vai te pegar ao menor vacilo. Tu vais sifu, Pé na Cova. Lasquem-se, bruxos agourentos, Banshee malditos. Vão agourar o cão, gota serena! É tua mãe! Nos deixem em paz! É o que mais se ouve, é o grito silencioso dos revoltados com a vigilância terrorista contra os seminovos que assistiram à única Copa do Mundo na qual a Inglaterra ganhou e Pelé se machucou. Danem-se!
    Pra aliviar o cárcere, convidou amigos de bar para encontro em lugar amplo, sob sombra de cajueiro, com o distanciamento de moça donzela aos tarados, quando beberiam, sorririam e lamentariam as angústias que se abatem sobre os caçados por Caetana.

  • Cuidado com Caetana! – nos alertava o genial Ariano Suassuna.
  • Quando a gente menos esperar, ela nos laça. – e isso dito quando a morte era apenas uma certeza, mas havia a dúvida de quando chegaria. Agora, não. Estão nos dizendo como se fossemos surdos e pré-defuntos:
  • Cuidado! Se você é de risco, pode sifu antes de o galo cantar, então durma de máscara. – e no feofó, nada, só dinheiro desviado da saúde para a bunda do senador ladrão?

  • Filhos da puta! Vão se lascar! Enfiem esses vírus no primeiro chinês que encontrarem contrabandeando na feira do Paraguai.
    O amigo Gordo, também prisioneiro, de início topou com voz de homem determinado e livre em suas ações:
  • Tá oquei. Sábado chegaremos aí, eu e o Nego Burro Preto. – afirmou com o gogó que só o homem solteiro tem, e ele só tem pabulagem.
    Chegado o dia da fuga da prisão domiciliar com tornozeleira da vigilante esposa, o amigo Gordo até tomou banho, fez a barba, se perfumou, vestiu roupa no lugar da pandêmica bermuda mofada por bufas revoltosas pelo aprisionamento. E a mulher só olhando, espiando pelos cantos dos olhos qual faz animal traiçoeiro, preparando o bote final e definitivo, com ciúmes do bar, não do homem. A liberdade só será igual em gênero quando a mulher sair com as amigas para os bares, aí perceberão a liberdade do conversar, do serem bem humoradas, do serem livres.

  • O amigo Gordo, antes de abrir a porta e sair, destravou a portinhola, colocou a cabeça pra fora de casa feito tartaruga, espiou a rua, meneando a cabeça de um lado para o outro como fazem os escondidos, respirou fundo, colocou a máscara e deu o primeiro passo pra sair, quando sua esposa, companheira de cárcere, perguntou com voz fúnebre:
  • Tu tá mesmo pensando em ir pru sítio com o vírus caçando velhinhos porai? Huuummmm! Sei não. – perguntou e ameaçou com ar de quase viúva.

  • O Gordo, homem de teatro, se preocupou com o Huuummmm. Sabia que na linguagem teatral, e na ameaça das mulheres, o Huuummmm vale mais que mil palavras. Para não ficar por baixo, nem parecer recuo covarde, disse não ir mais porque o tempo ameaçava chover, muito embora estivesse em Fazenda Nova e lá só chove quando sobra água nas nuvens e não tem mais onde molhar. O Sol se abanava de tanto calor em céu limpo, azulzinho que só cachete pra levantar guerreiro aposentado.
    O Gordo, triste que só prisioneiro que retorna da porta da cadeia à cela, despiu-se da roupa domingueira e vestiu novamente a fedorenta bermuda, lembrando-se do famoso filósofo sueco dos aveloses, Sir Solrac Oriehnip: “Às vezes, sem o bar, a gente olha pra dentro de nós mesmos e tudo que enxergamos é um imenso buraco, sem gelo nem garçom”.

Vê se pode?!

Comentários do Facebook