Coluninha indiscreta. Por Carlos Pinheiro.

Viagem sem bagagem nem adeus. Quando os amigos fazem a última viagem, as nuvens adquirem o matiz zinco, a tristeza se espalha deixando rastilho de saudade, de lembranças dos momentos felizes em encontros festivos, em cochichos miúdos ao pé de ouvidos revelando coisas proibidas, ou confidências de dramas pessoais que só os amigos sabem ouvir, às vezes opinando em concordância, noutras em desagradáveis contestações E, quando não sabendo ou não querendo opinar, reina o silêncio e o ouvido é, mesmo assim, emprestado ao desabafo das angústias que carregamos em determinados momentos da vida as quais só aos verdadeiros amigos confidenciamos com a certeza do segredo absoluto, pois amigo é aquele que sabe silenciar, aplaudir e contestar as ações dos verdadeiros amigos.
Fernando Souto, o Fernando da Casa do Camponês, era esse tipo de amigo, em quem se podia confiar cegamente. Partiu sem levar bagagem de bens e sem o último adeus aos amigos.

Porém deixou bagagem cheia de exemplos do bom caráter que foi, do amigo solidário, do pai amoroso e cuidadoso, dedicado aos filhos adultos como se ainda crianças fossem. Na bagagem do Fernando Comerciante, fomos testemunha de gestos ao se levantar da mesa de trabalho e atender o fazendeiro rico com gentileza e orientação para o que desejava adquirir. Presenciamos, também, o mesmo tratamento ao homem simples do campo que segredava baixinho desejar uma arroba de milho para plantar, mas estar momentaneamente sem dinheiro. E, com o braço sobraçando o ombro do pequeno agricultor, Fernando dizia com sorriso de sinceridade:


– Meu amigo, você leva toda a loja se precisar e, quando colher sua safra, a gente acerta. – E lá ia o homem camponês com sua mercadoria, agradecido àquele comerciante simples, altruísta. E, se por infortúnio de intempéries adversas da natureza, o homem do campo chegava humilhado, se justificando não poder pagar por ter perdido a colheita pela crueldade da seca, encontrava em Fernando, novamente, o comerciante solidário, amigo:
– Não se preocupe. Leve o que quiser e, na próxima safra, quando o senhor lucrar, a gente acerta. E retornava o agricultor agraciado com a solidariedade que tinha no homem comerciante, amigo do homem do campo.


Fernando gostava de cultivar amigos e era comum encontrar vários deles em sua mesa de trabalho ao visitarem Caruaru. Era passagem obrigatória a visita de amigos como o jornalista Zé Torres, o amigo e colega de escola Gianni Mastroianni, o amigo “cúmplice de atividades sociais não republicanas” Oscarlino Laranjeira, a prima miss Dione Oliveira, isso só para citar alguns, pois a lista de amigos ocuparia toda esta Coluninha. Fernando atendia a todos contando piadas quando incluía os amigos como personagens, em pegadinhas que terminava com sua risada de esgar mangando do amigo, como se fossem ainda colegiais.
A bagagem que Fernando nos deixa está recheada de amizade, lembranças de bons momentos, solidariedade, altruísmo, decência, honestidade, exemplo de equilíbrio até em momentos crucias de sua vida. Acometido de leucemia medular e problemas pulmonares por um ano, foi paciente preocupado com os filhos orientando a todos para a condução na administração da Casa do Camponês e da AgriCenter.


Dos filhos, Fernandinho é aquele que mais se parece com ele. Filho amigo, confidente, participativo, sentiu mais orgulho pelo pai ao presenciar seu último adeus uma semana antes do desenlace, quando Fernando o orientou pela última vez e se despediu da família, lamentando não poder se despedir de cada amigo com um último abraço, com o último adeus.


Certa feita, Fernando vinha de Recife quando presenciou o carro de Fernandinho estacionado em frente a motel em Gravatá. Ligou para o filho perguntando onde estava e, Fernadinho, respeitoso, mentiu dizendo estar naquele momento cruzando a Rua da Matriz, em Caruaru. Fernando, então, disse galhofeiro:

– Então ligue pra polícia, pois seu carro foi roubado e está estacionado aqui na porta do motel em Gravatá.
E gargalhou. Ah! Amigos! Somos capazes de até inverter personagens numa história em nome da boa amizade.
Adeus, amigo Fernando.
Podia não.

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