Coluninha indiscreta. Por Carlos Pinheiro.

Perceberam que mortos da Covid-19 viraram números, estatísticas? Não se mostra o rosto dos falecidos, apenas números, são centenas em Caruaru e quase cem mil brasileiros, amigos e parentes que nos deixaram sem a programação natural do tempo, da doença, do acidente, da violência, da vontade de Deus, ou não. Tiraram-nos o luto necessário para o simbolismo da separação inevitável e definitiva entre pessoas que se amam, momento mais cruel da existência humana quando a gente se despede daqueles que amamos acariciando seu rosto frio, inerte, num caixão rodeado por flores, sem o último beijo, sem as últimas palavras de perdão por não ter feito mais, de saudade, de desejo que encontre a tão merecida paz eterna.

A última prece não houve, nem os discursos lacrimais dos amigos, sem o cortejo doloroso, com ou sem música, com buzinaço, com aplausos por aquilo que foi, o coração apertado quase implodindo, o abraço solidário de amigos, o engavetamento em mausoléu ou em cova de terra escavada, em cremação… Não importa. A hora chegou. “Era a parte que te cabia neste latifúndio”. Mas, faltou o adeus, o Eu te amo e Te amarei para sempre. Cruel, muito cruel, sepultar sem se despedir, falta “um pedaço de nós”. Falta a última palavra, o último gesto. E, se criança, falta o pedido de desculpa por não tê-la permitido crescer. A morte parece só existir com a despedida do velório.

Fecha-se o caixão com o personagem amigo de tantas histórias, como se cerram as cortinas do teatro trágico, sem o afago dos aplausos nem o retorno de atores ao picadeiro de uma vida que existiu e deixou vínculos de amizades e amores que só os envolvidos sabem mensurar. Precisava de um último adeus, do último aplauso, do definitivo trompete soprando a última poesia. Mas, não teve o último aplauso de saudade. O corpo foi jogado à vala às pressas, sem familiares nem amigos. Só o maldito vírus como companhia.
Cruel. Muito cruel essa Covid-19, quando crianças são empacotadas em urnas funerárias como se múmias fossem, quando nem chegaram à idade dos Faraós. A crueldade humana em nome da mesma saúde da humanidade que isola afagos, beijos, choros e velas, sem o ritual das orações, sem o sussurro de gemidos em ouvidos já sem audição.

É o mais doloroso ritual deste maldito vírus, que, além de nos tolher a liberdade do ir e vi,r impõe-nos a crueldade da ausência da última despedida. E os “pedaços amputados de mim” são sepultados sem a poesia da última declaração de amor. Afastem de nós este maldito cálice que censura o adeus, que impõe o sofrimento de famílias de mortos abandonados, parecendo desaparecidos. A mais cruel dor do ser humano é o desaparecimento. Não saber onde estar, se vivo ou morto, se com frio, com fome, com sede, sem afeto, sem carinho. Essa dor do desconhecer onde estar torna-se semelhante ao sepultamento à distância do ente querido, jogado numa vala sem o cerimonial da oração, das palavras, da última carícia no rosto frio.

E, até na pandemia cruel sem velório, ainda vemos grupos políticos que manifestam a estupidez partidária, ideológica, em defesa e contra o uso de remédios que só aos médicos cabem decidir e pelejam torcendo pelo fracasso ou pelo sucesso de tratamento que não conhecem. Estupidez.
A política se revelou pequena, medíocre, primitiva, esqueceu que precisamos fortalecer o SUS – Sistema Único de Saúde-, que se revelou, junto com médicos e enfermeiros heroicos, o melhor atendimento a toda a população. Poucos políticos com mandatos se manifestaram, ficaram na toca, longe do povo. Lembraremos dos omissos nas próximas eleições.
Que a ciência encontre logo a vacina, que os mortos nos perdoem pela presença proibida ao último adeus, e confortemos os sobreviventes enfermos.


Vê se pode?!

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