Caminhantes na Praça do Amor. Por Carlos Pinheiro!

Dava gosto de ver Severino Melo e Dona Nete caminhando na Praça Hermilo Borba Filho, no bairro Maurício de Nassau, em Caruaru, nos finais de tarde acompanhando o pôr do Sol. De mãos dadas, como eternos namorados, caminhavam e falavam, conversavam. Ela falava e ele ouvia silenciosamente, afinal essa é a maior e sábia tolerância do homem: deixar a mulher falar e ouvir, e só se manifestar quando ela pergunta: “E aí, você não vai dizer nada”?

Então ele dava opinião sobre o assunto: de filhos presentes, outros ausentes, de netos estudiosos e outros preguiçosos, do tempo deles que se enamoraram na esperança do convívio fraternal e familiar que conseguiram formar em torno da filha Carmem Dolores, de Fernando e de tantos outros filhos homens que quase daria para formar um time de futebol. Carinhos, indiferenças, presenças e ausências existentes em todas as boas famílias brasileiras. Mas, caminhavam e conversavam, e o vento soprava cabelos brancos de histórias vividas. Folhas secas caídas das árvores da Praça que zelaram com o cuidado em tanger animais famintos querendo se alimentar do verde, do enfrentamento aos destruidores do patrimônio público, que agem pelo prazer absurdo de apenas destruir. Caminhavam observando aqueles egoístas que se apropriavam da sobra de uma árvore para proteger seu carro, mas nunca plantaram uma semente em sua calçada, coisa da falta de sensibilidade ambiental, desamor pela natureza.


Mas, o Padeiro, assim chamava carinhosamente Severino, e Dona Nete eram assíduos frequentadores da Praça que edificamos e a protegemos com o apoio de outros moradores, como Antônio e Dona Nininha, Luiz e sua esposa, Sueli, filhas, filho, nora e netos. E, com cuidado e dedicação, a praça é hoje espaço verde em Caruaru, bonita, exuberante, com suas árvores seculares, embora só tenham a metade dessa existência, plantadas e defendidas por todos, pais, filhos e netos moradores em seu entorno.
A Praça se tornou tão aconchegante, tão habitável que foi apelidada pela imprensa como a Praça do Amor, pois estudantes gazeiam aulas para em seus bancos sentarem, namorem e trocarem beijos ardentes, além de outras carícias impublicáveis.


Porém, todo final de tarde, o casal Severino e Dona Nete estava lá, caminhando de mãos dadas, observando as flores, ajudando com a aguação, com o recolhimento das folhas secas, caminhando e conversando, cabelos brancos soltos ao vento. E, neste último domingo, Dona Nete se foi ao encontro do Padeiro, levando em suas mãos buquê de flores, provavelmente da Praça do Amor que, com certeza, eles defenderão do alto das nuvens, assim como Walter Andrade está lá defendendo o logradouro com muito amor e muita saudade.
Que Dona Nete tenha um caminho das flores que ela tanto gostava de ver e cuidar na Praça! E, quando seus filhos e netos por ali passarem, que possam sentir em cada árvore que plantamos a existência viva dos caminhantes de mãos dadas e cabelos brancos, que estão vivos em cada árvore tremulante como forma de aceno do último adeus.
Podia não.

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